Julio Valentim - A Mobilidade das Multidões.

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[Audio] A Mobilidade das Multidões Comunicação Sem-fio, Smart Mobs e Resistência nas Cibercidades Júlio Valentim∗ A mobilidade tornou-se uma política ativa e uma posição política estabelecida. A mobilidade e o nomadismo das multidões sempre expressam uma recusa e uma busca de libertação: a resistência contra as horríveis condições de exploração e a busca de liberdade e de novas condições de vida. Antonio Negri e Michael Hardt, Império Resumo O objetivo do artigo é mostrar como a introdução da mobilidade nas redes comunicacionais – resultado da convergência da telefonia móvel, da computação portátil e das conexões sem-fio – provoca mudanças na maneira como as cidades e seus habitantes se organizam e interagem. As cidades se tornam cibercidades e a comunicação ganha um novo sentido ao transformar-se numa permanente troca de informações. Por fim, analisaremos o que vem sendo chamado de Smart Mobs, especialmente aquelas que resistem às novas estratificações sociais e às novas formas de controle urbanas. Graças às infra-estruturas das cibercidades, essas multidões utilizam a sua inteligência coletiva, mobilidade e comunicação para criar e conquistar novos espaços, liberdades e condições de vida. Introdução A sociedade contemporânea parece possuir uma certa " obsessão" pela mobilidade. Prova disso é a reconfiguração pela qual passam os espaços urbanos. Nossas cidades se tornam, cada vez mais, ambientes onde os cidadãos se livram dos dispositivos eletrônicos com fios e cabos. Através de celulares e dispositivos sem-fio, agora eles se comunicam uns com os outros e conectam-se à Internet e outras redes ad-hoc1 de qualquer lugar onde haja cobertura. Emerge uma era da portabilidade, da mobilidade e da conexão generalizada dentro e fora dos ambientes domésticos, de trabalho, consumo e lazer. O advento das tecnologias móveis permite a articulação do espaço físico com o espaço virtual, e faz com que pessoas, veículos, objetos e lugares possam ser localizados e conectados sem-fio, entre si e a qualquer parte do mundo, através do ciberespaço. A cidade começa a ter uma dinâmica atrelada à cibernética. A mobilidade dos urbanitas passa a depender cada vez mais de conexões, senhas de acesso, trocas de informações, feedbacks e interatividades entre homens e homens, homens e máquinas, e máquinas e máquinas. Nossos ambientes urbanos estão se tornando cibercidades ( Lemos, 2004b), onde a mobilidade cria hierarquias e passa a ser controlada. Mas onde novas resistências ∗ Doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela FACOM- UFBA. Mestre em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ. Pesquisador do CiberPesquisa ( Centro Internacional de Estudos e Pesquisa em Cibercultura) da FACOM-UFBA, e ex-membro do CiberIdea ( Núcleo de Pesquisa em Tecnologia, Cultura e Subjetividade) da ECO-UFRJ. 1 " Ad-hoc" é um termo latino que significa criado para um fim específico. Redes ad-hoc são redes locais que não necessariamente estão conectadas à Internet.

A Mobilidade das Multidões Comunicação Sem-fio, Smart Mobs e Resistência nas Cibercidades Júlio Valentim∗ A mobilidade tornou-se uma política ativa e uma posição política estabelecida. A mobilidade e o nomadismo das multidões sempre expressam uma recusa e uma busca de libertação: a resistência contra as horríveis condições de exploração e a busca de liberdade e de novas condições de vida. Antonio Negri e Michael Hardt, Império Resumo O objetivo do artigo é mostrar como a introdução da mobilidade nas redes comunicacionais – resultado da convergência da telefonia móvel, da computação portátil e das conexões sem-fio – provoca mudanças na maneira como as cidades e seus habitantes se organizam e interagem. As cidades se tornam cibercidades e a comunicação ganha um novo sentido ao transformar-se numa permanente troca de informações. Por fim, analisaremos o que vem sendo chamado de Smart Mobs, especialmente aquelas que resistem às novas estratificações sociais e às novas formas de controle urbanas. Graças às infra-estruturas das cibercidades, essas multidões utilizam a sua inteligência coletiva, mobilidade e comunicação para criar e conquistar novos espaços, liberdades e condições de vida. Introdução A sociedade contemporânea parece possuir uma certa “obsessão” pela mobilidade. Prova disso é a reconfiguração pela qual passam os espaços urbanos. Nossas cidades se tornam, cada vez mais, ambientes onde os cidadãos se livram dos dispositivos eletrônicos com fios e cabos. Através de celulares e dispositivos sem-fio, agora eles se comunicam uns com os outros e conectam-se à Internet e outras redes ad-hoc1 de qualquer lugar onde haja cobertura. Emerge uma era da portabilidade, da mobilidade e da conexão generalizada dentro e fora dos ambientes domésticos, de trabalho, consumo e lazer. O advento das tecnologias móveis permite a articulação do espaço físico com o espaço virtual, e faz com que pessoas, veículos, objetos e lugares possam ser localizados e conectados sem-fio, entre si e a qualquer parte do mundo, através do ciberespaço. A cidade começa a ter uma dinâmica atrelada à cibernética. A mobilidade dos urbanitas passa a depender cada vez mais de conexões, senhas de acesso, trocas de informações, feedbacks e interatividades entre homens e homens, homens e máquinas, e máquinas e máquinas. Nossos ambientes urbanos estão se tornando cibercidades (Lemos, 2004b), onde a mobilidade cria hierarquias e passa a ser controlada. Mas onde novas resistências

∗ Doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela FACOM-UFBA. Mestre em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ. Pesquisador do CiberPesquisa (Centro Internacional de Estudos e Pesquisa em Cibercultura) da FACOM-UFBA, e ex-membro do CiberIdea (Núcleo de Pesquisa em Tecnologia, Cultura e Subjetividade) da ECO-UFRJ.

1 “Ad-hoc” é um termo latino que significa criado para um fim específico. Redes ad-hoc são redes locais que não necessariamente estão conectadas à Internet.