Microsoft Word - J.lio Valentim_Valentimdefiitivo_A Mobilidade das Multidoe.

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[Audio] A Mobilidade das Multidões Comunicação Sem-fio, Smart Mobs e Resistência nas Cibercidades Júlio Valentim∗ A mobilidade tornou-se uma política ativa e uma posição política estabelecida. A mobilidade e o nomadismo das multidões sempre expressam uma recusa e uma busca de libertação: a resistência contra as horríveis condições de exploração e a busca de liberdade e de novas condições de vida. Antonio Negri e Michael Hardt, Império Resumo O objetivo do artigo é mostrar como a introdução da mobilidade nas redes comunicacionais – resultado da convergência da telefonia móvel, da computação portátil e das conexões sem-fio – provoca mudanças na maneira como as cidades e seus habitantes se organizam e interagem. As cidades se tornam cibercidades e a comunicação ganha um novo sentido ao transformar-se numa permanente troca de informações. Por fim, analisaremos o que vem sendo chamado de Smart Mobs, especialmente aquelas que resistem às novas estratificações sociais e às novas formas de controle urbanas. Graças às infra-estruturas das cibercidades, essas multidões utilizam a sua inteligência coletiva, mobilidade e comunicação para criar e conquistar novos espaços, liberdades e condições de vida. Introdução A sociedade contemporânea parece possuir uma certa " obsessão" pela mobilidade. Prova disso é a reconfiguração pela qual passam os espaços urbanos. Nossas cidades se tornam, cada vez mais, ambientes onde os cidadãos se livram dos dispositivos eletrônicos com fios e cabos. Através de celulares e dispositivos sem-fio, agora eles se comunicam uns com os outros e conectam-se à Internet e outras redes ad-hoc1 de qualquer lugar onde haja cobertura. Emerge uma era da portabilidade, da mobilidade e da conexão generalizada dentro e fora dos ambientes domésticos, de trabalho, consumo e lazer. O advento das tecnologias móveis permite a articulação do espaço físico com o espaço virtual, e faz com que pessoas, veículos, objetos e lugares possam ser localizados e conectados sem-fio, entre si e a qualquer parte do mundo, através do ciberespaço. A cidade começa a ter uma dinâmica atrelada à cibernética. A mobilidade dos urbanitas passa a depender cada vez mais de conexões, senhas de acesso, trocas de informações, feedbacks e interatividades entre homens e homens, homens e máquinas, e máquinas e máquinas. Nossos ambientes urbanos estão se tornando cibercidades ( Lemos, 2004b), onde a mobilidade cria hierarquias e passa a ser controlada. Mas onde novas resistências ∗ Doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela FACOM- UFBA. Mestre em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ. Pesquisador do CiberPesquisa ( Centro Internacional de Estudos e Pesquisa em Cibercultura) da FACOM-UFBA, e ex-membro do CiberIdea ( Núcleo de Pesquisa em Tecnologia, Cultura e Subjetividade) da ECO-UFRJ. 1 " Ad-hoc" é um termo latino que significa criado para um fim específico. Redes ad-hoc são redes locais que não necessariamente estão conectadas à Internet.

A Mobilidade das Multidões Comunicação Sem-fio, Smart Mobs e Resistência nas Cibercidades Júlio Valentim∗ A mobilidade tornou-se uma política ativa e uma posição política estabelecida. A mobilidade e o nomadismo das multidões sempre expressam uma recusa e uma busca de libertação: a resistência contra as horríveis condições de exploração e a busca de liberdade e de novas condições de vida. Antonio Negri e Michael Hardt, Império Resumo O objetivo do artigo é mostrar como a introdução da mobilidade nas redes comunicacionais – resultado da convergência da telefonia móvel, da computação portátil e das conexões sem-fio – provoca mudanças na maneira como as cidades e seus habitantes se organizam e interagem. As cidades se tornam cibercidades e a comunicação ganha um novo sentido ao transformar-se numa permanente troca de informações. Por fim, analisaremos o que vem sendo chamado de Smart Mobs, especialmente aquelas que resistem às novas estratificações sociais e às novas formas de controle urbanas. Graças às infra-estruturas das cibercidades, essas multidões utilizam a sua inteligência coletiva, mobilidade e comunicação para criar e conquistar novos espaços, liberdades e condições de vida. Introdução A sociedade contemporânea parece possuir uma certa “obsessão” pela mobilidade. Prova disso é a reconfiguração pela qual passam os espaços urbanos. Nossas cidades se tornam, cada vez mais, ambientes onde os cidadãos se livram dos dispositivos eletrônicos com fios e cabos. Através de celulares e dispositivos sem-fio, agora eles se comunicam uns com os outros e conectam-se à Internet e outras redes ad-hoc1 de qualquer lugar onde haja cobertura. Emerge uma era da portabilidade, da mobilidade e da conexão generalizada dentro e fora dos ambientes domésticos, de trabalho, consumo e lazer. O advento das tecnologias móveis permite a articulação do espaço físico com o espaço virtual, e faz com que pessoas, veículos, objetos e lugares possam ser localizados e conectados sem-fio, entre si e a qualquer parte do mundo, através do ciberespaço. A cidade começa a ter uma dinâmica atrelada à cibernética. A mobilidade dos urbanitas passa a depender cada vez mais de conexões, senhas de acesso, trocas de informações, feedbacks e interatividades entre homens e homens, homens e máquinas, e máquinas e máquinas. Nossos ambientes urbanos estão se tornando cibercidades (Lemos, 2004b), onde a mobilidade cria hierarquias e passa a ser controlada. Mas onde novas resistências

∗ Doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela FACOM-UFBA. Mestre em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ. Pesquisador do CiberPesquisa (Centro Internacional de Estudos e Pesquisa em Cibercultura) da FACOM-UFBA, e ex-membro do CiberIdea (Núcleo de Pesquisa em Tecnologia, Cultura e Subjetividade) da ECO-UFRJ.

1 “Ad-hoc” é um termo latino que significa criado para um fim específico. Redes ad-hoc são redes locais que não necessariamente estão conectadas à Internet.

Scene 2 (3m 30s)

também são criadas. Analisaremos, portanto, os novos agenciamentos de comunicação, mobilidade, controle e resistência presentes nas cibercidades que estamos construindo. A Cultura da Mobilidade Movemos-nos cada vez mais, seja através das redes de transportes ou das redes telemáticas globais. Todo dia aparecem novas tecnologias que garantem a mobilidade de pessoas, objetos e informações, não só de uma cidade para outra, mas também dentro dos próprios ambientes urbanos. As tecnologias da mobilidade fazem cada vez mais parte do nosso cotidiano, e à medida que elas se banalizam (Graham, 2004) surge o desafio de pensar as implicações de tal mobilidade. Vários pesquisadores, entre eles filósofos, sociólogos, antropólogos, urbanistas e comunicólogos, buscam pensar a interdependência entre diversos tipos de mobilidades − de pessoas, objetos, informações, imagens e dejetos − e as conseqüências sociais destas para a vida urbana. John Urry, por exemplo, propõe uma sociologia da mobilidade2. Seu objetivo é mostrar como as novas mobilidades estão transformando o próprio tema central da sociologia. A sociologia deixa de pensar o “social como sociedade” e começa a pensar o “social como mobilidade” (Urry, 2000, p. 186). Michel Maffesoli (2001) também chama a atenção para a idéia da mobilidade e do nomadismo como um aspecto fundador de cidades e de todo o conjunto social. A mobilidade social já vem sendo investigada há bastante tempo pela sociologia, mas sempre como mudança de status dentro de uma hierarquia. Urry busca entendê-la num sentido horizontal ao invés de vertical. Para isso, realiza a análise não só da mobilidade dos humanos, mas também de outros agentes não-humanos como, por exemplo, as informações e os dispositivos tecnológicos. A mobilidade já carrega em si a idéia de constante mudança. Como nos diz Zygmunt Bauman (1999, p. 8), “todos nós estamos, a contragosto, por desígnio ou à revelia, em movimento. Estamos em movimento mesmo que fisicamente estejamos imóveis: a imobilidade não é uma opção realista num mundo em permanente mudança”. A idéia de imobilidade ou estado de repouso só faz sentido num mundo que fica parado. Mas não se pode ficar imóvel num mundo que, mesmo quando não nos movemos, ele se move sob nossos pés 3. As análises de Bauman se assemelham bastante com as de Urry, porém ele continua a pensar a mobilidade dentro de uma hierarquia vertical. Para Bauman (1999, 77-84), somos testemunhas hoje de um processo de reestratificação sociocultural em escala mundial, no qual uma nova hierarquia é construída. Enquanto alguns se tornam plenamente globais, a maioria se fixa em sua localidade. Surge uma nova elite global com plena liberdade de mover e agir. Mas também uma multidão presa a sua localidade e entregue à privação e degradação social. O Critical Art Ensemble4, no contexto do ciberespaço, também chama atenção para essa polarização. “As nações, classes, raças e gêneros diferenciados e hierárquicos da sociedade sedentária moderna, todos se fundem

2 Alain Bourdin parece compactuar com a proposta sociológica de Urry ao dizer que “a mobilidade constitui um ‘fenômeno social total’ que justifica uma sociologia ou uma antropologia” (Bourdin, 2001, p. 65). Porém, o seu trabalho se enquadra bem mais nos estudos antropológicos.

3 Pierre Lévy (1998, p. 14) faz análise parecida ao nos dizer que hoje “mesmo que não nos movêssemos, o mundo mudaria a nossa volta”. Porém, Lévy destaca que os nômades contemporâneos se movem em outro espaço, são imigrantes da subjetividade, nômades subjetivos. A questão central para Lévy é que a principal mobilidade desse processo é mais profunda: o deslocamento de um tipo de humanidade para outro (Lévy, 1999, p. 11-18).

4 O Critical Art Ensemble (CAE) é um coletivo formado por cinco ativistas, focado nas interseções entre arte, teoria crítica, tecnologia e política radical. Para mais informações, ver http://www.critical-art.net/.

Scene 3 (4m 53s)

[Audio] sob o domínio nômade e passam a ter o papel de prestadores de serviço − zeladores da ciberelite" ( Ensemble, 2001, p. 25). A mobilidade passa a possuir " um sentido radicalmente diferente, oposto, para os que estão no alto e os que estão embaixo na nova hierarquia, com o grosso da população − a 'nova classe média' que oscila entre os dois extremos − suportando o impacto dessa oposição e sofrendo em conseqüência uma aguda incerteza existencial, ansiedade e medo" ( Bauman, 1999, p. 10). Junto com a vida "em movimento", eis que surge a realidade de uma vida alternativa: a vida da imobilidade. A " localidade móvel" não exclui uma recomposição da " localidade estática" ( Bordreuil apud Bourdin, 2001, p. 69). A intensificação da mobilidade borra fronteiras territoriais, mas também tem a capacidade de fixar localidades. As redes globais de não- lugares ( Augé, 1994) não suprimem os locais. Ao contrário, "uma rede global ampla continua a ser local em todos os seus pontos" ( Latour, 1994, p. 114) 5. A liberdade de movimento, portanto, está no centro desse processo de polarização, é o principal fator de estratificação territorial e sociocultural, e passa a revitalizar as tradicionais distinções entre ricos e pobres, nômades e sedentários. À medida que os centros de produção de significado e valor passam a ser extraterritoriais e emancipados das restrições locais, ocorre uma ruptura de comunicação entre as elites globais e o restante da população, cada vez mais localizada. A mobilidade passa a ser o valor mais cobiçado e o principal mediador de sentido entre os pólos da hierarquia. Na atual cultura da mobilidade, ao mesmo tempo em que a comunicação passa a ser móvel, a mobilidade torna-se comunicativa. Redes Fragmentadoras e Conexão sem-fio nas Cibercidades "A mobilidade generalizada produz uma sociedade cujos territórios são constituídos a partir do movimento e onde o local se funda na diferença das mobilidades" ( Bourdin, 2001, p. 69). As localidades com maior mobilidade são aquelas cidades conectadas em redes globais, sobretudo, através de redes telecomunicacionais de computadores e sistemas de transporte computadorizados. São grandes metrópoles concentradoras de infra-estruturas, pessoas, tecnologias, dados, recursos econômicos e atividades comerciais/industriais ( Castells, 2003, p. 184- 190). Isso confirma, segundo Manuel Castells, que as redes globais são fragmentadoras. A competição do mercado global e a ausência de regulação local criam diferenças extraordinárias tanto entre as cidades quanto dentro delas. A capacidade que cada uma tem de se interconectar com eficiência se torna uma necessidade e um diferencial (Castells, 2003, p. 196). As novas tecnologias de comunicação e informação se tornam condição necessária para a competição entre cidades − e entre os cidadãos dentro delas −, uma vez que os usos da Internet passam a depender não só da conectividade, mas também da qualidade na conexão. A mobilidade se torna um fator qualitativo da conexão. Com o surgimento das tecnologias móveis, por exemplo, conexão e mobilidade se tornam quase sinônimos. Como diz André Lemos, A fase atual da computação ubíqua, dos objetos sencientes, dos computadores pervasivos e do acesso sem-fio mostra a emergência da era da conexão e da relação cada vez mais intrínseca entre os espaços físicos da cidade e o espaço virtual das 5 Latour critica a distinção entre global e local para pensar as redes. "Local e global são conceitos bem adaptados às superfícies e à geometria, mas inadequados para as redes e a topologia" (Latour, 1994, p. 116). Para ele, "os dois extremos, local e global, são bem menos interessantes do que os agenciamentos intermediários que chamamos de redes" ( Idem, p. 120).

sob o domínio nômade e passam a ter o papel de prestadores de serviço − zeladores da ciberelite” (Ensemble, 2001, p. 25). A mobilidade passa a possuir “um sentido radicalmente diferente, oposto, para os que estão no alto e os que estão embaixo na nova hierarquia, com o grosso da população − a ‘nova classe média’ que oscila entre os dois extremos − suportando o impacto dessa oposição e sofrendo em conseqüência uma aguda incerteza existencial, ansiedade e medo” (Bauman, 1999, p. 10). Junto com a vida “em movimento”, eis que surge a realidade de uma vida alternativa: a vida da imobilidade. A “localidade móvel” não exclui uma recomposição da “localidade estática” (Bordreuil apud Bourdin, 2001, p. 69). A intensificação da mobilidade borra fronteiras territoriais, mas também tem a capacidade de fixar localidades. As redes globais de não-lugares (Augé, 1994) não suprimem os locais. Ao contrário, “uma rede global ampla continua a ser local em todos os seus pontos” (Latour, 1994, p. 114)5. A liberdade de movimento, portanto, está no centro desse processo de polarização, é o principal fator de estratificação territorial e sociocultural, e passa a revitalizar as tradicionais distinções entre ricos e pobres, nômades e sedentários. À medida que os centros de produção de significado e valor passam a ser extraterritoriais e emancipados das restrições locais, ocorre uma ruptura de comunicação entre as elites globais e o restante da população, cada vez mais localizada. A mobilidade passa a ser o valor mais cobiçado e o principal mediador de sentido entre os pólos da hierarquia. Na atual cultura da mobilidade, ao mesmo tempo em que a comunicação passa a ser móvel, a mobilidade torna-se comunicativa. Redes Fragmentadoras e Conexão sem-fio nas Cibercidades “A mobilidade generalizada produz uma sociedade cujos territórios são constituídos a partir do movimento e onde o local se funda na diferença das mobilidades” (Bourdin, 2001, p. 69). As localidades com maior mobilidade são aquelas cidades conectadas em redes globais, sobretudo, através de redes telecomunicacionais de computadores e sistemas de transporte computadorizados. São grandes metrópoles concentradoras de infra-estruturas, pessoas, tecnologias, dados, recursos econômicos e atividades comerciais/industriais (Castells, 2003, p. 184-190). Isso confirma, segundo Manuel Castells, que as redes globais são fragmentadoras. A competição do mercado global e a ausência de regulação local criam diferenças extraordinárias tanto entre as cidades quanto dentro delas. A capacidade que cada uma tem de se interconectar com eficiência se torna uma necessidade e um diferencial (Castells, 2003, p. 196). As novas tecnologias de comunicação e informação se tornam condição necessária para a competição entre cidades − e entre os cidadãos dentro delas −, uma vez que os usos da Internet passam a depender não só da conectividade, mas também da qualidade na conexão. A mobilidade se torna um fator qualitativo da conexão. Com o surgimento das tecnologias móveis, por exemplo, conexão e mobilidade se tornam quase sinônimos. Como diz André Lemos,

A fase atual da computação ubíqua, dos objetos sencientes, dos computadores pervasivos e do acesso sem-fio mostra a emergência da era da conexão e da relação cada vez mais intrínseca entre os espaços físicos da cidade e o espaço virtual das

5 Latour critica a distinção entre global e local para pensar as redes. “Local e global são conceitos bem adaptados às superfícies e à geometria, mas inadequados para as redes e a topologia” (Latour, 1994, p. 116). Para ele, “os dois extremos, local e global, são bem menos interessantes do que os agenciamentos intermediários que chamamos de redes” (Idem, p. 120).

Scene 4 (9m 40s)

[Audio] redes telemáticas. O desafio da gestão informacional, comunicacional e urbanística das cidades passa pelo reconhecimento dessa era da conexão e da mobilidade ( Lemos, 2004a). Essa tendência provoca uma mutação na física da comunicação nas cibercidades, pois passaríamos "das noções de canal e de rede a uma sensação de espaço envolvente. Os veículos de comunicação não estariam mais no espaço mas, por meio de uma espécie de reviravolta topológica, todo o espaço se tornaria um canal interativo" ( Lévy, 1999, p. 127). Passamos da idéia de " ponto de conexão" para a de um " ambiente de conexão". Ou mesmo de uma " nuvem de conexão", onde a rede torna-se exceção e não mais norma totalizante da conectividade; a rede deixa de ser lei e passa a ser um limite. Michel Serres ( 1990, p. 101- 124) já havia previsto tal mutação topológica. Segundo ele, as redes são grades desnecessárias, sistemas planos racionais, tramas de múltiplas seqüências lineares, que expressam escolhas arbitrárias de poder. Ainda possuem origens e hierarquias, ao passo que a nuvem está privada da origem − esse lugar central do dominador e sua ordem6. Nesse ambiente envolvente de conexão generalizada, as redes não existem a priori, mas emergem das conexões estabelecidas entre os dispositivos. Através da utilização de tecnologias Wi-Fi7 como a Mesh8, as próprias redes se tornam nômades, uma vez que o alcance de sua área de cobertura não é fixa, mas depende da localização de cada cidadão conectado. As Cibercidades e o Controle das Mobilidades A construção de cibercidades, e das mobilidades no interior delas, envolve processos de conexão de uma ampla variedade de pessoas, lugares e objetos. O exercício do poder atual também passa a estar conectado a esses processos de mobilidade. A constatação feita por Gilles Deleuze ( 1992, p. 215- 226) de que estaríamos passando de sociedades disciplinares para sociedades de controle ajuda a confirmar tal hipótese. Numa sociedade disciplinar o poder erige internatos ( escola, asilo, hospício, etc.) concebidos por analogia ao modelo da fábrica. Os internatos são espaços de confinamento, analógicos e locais. Já numa sociedade de controle o poder passa a erigir controlatos, espaços abertos, digitais e supralocais. Os controlatos são espaços de fluxos de dados, deformáveis e transformáveis. Segundo Deleuze, Félix Guattari chegou a vislumbrar uma cidade onde cada cidadão se moveria por casas, ruas, bairros, graças a um cartão eletrônico dividual9 que abriria as barreiras. Mas esse cartão poderia ser recusado em tal dia, ou entre tal e tal hora. As barreiras não importariam mais, e não confinariam mais nada. O que contaria seria a existência de computadores que detectam (através de leitores ou sensores) a 6 Através dessa análise da nuvem, Serres se aproxima bastante da idéia de espaço liso de Deleuze e Guattari ( 1997, p. 179- 214). 7 Wi-Fi é a abreviatura de " wireless fidelity" ( fidelidade sem fios), um padrão de acesso à Internet através de radiofreqüência. O seu padrão mais conhecido oferece uma velocidade de conexão de até 11 Mbps, e possui uma área de cobertura que alcança um raio de 100 metros. 8 As redes sem-fio Mesh ( Wireless Mesh Networks) são também chamadas de " multi-hop", isto é, envolve tecnologia de múltiplos saltos. Não há necessidade da linha de visada com o hot spot ( ponto de acesso público), pois com a utilização dos múltiplos saltos sempre haverá um caminho que permitirá contornar os obstáculos existentes que prejudicam o sinal de radiofreqüência. 9 Dividual, aqui, significa que pode ser compartilhado com outras pessoas. Segundo Deleuze, "os indivíduos tornaram-se ' dividuais', divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou ' bancos'" ( DELEUZE, 1992, p. 222). O controle opera com senhas ou cifras que permitem o acesso a/de " divíduos" agora reunidos em " banco de dados".

redes telemáticas. O desafio da gestão informacional, comunicacional e urbanística das cidades passa pelo reconhecimento dessa era da conexão e da mobilidade (Lemos, 2004a).

Essa tendência provoca uma mutação na física da comunicação nas cibercidades, pois passaríamos “das noções de canal e de rede a uma sensação de espaço envolvente. Os veículos de comunicação não estariam mais no espaço mas, por meio de uma espécie de reviravolta topológica, todo o espaço se tornaria um canal interativo” (Lévy, 1999, p. 127). Passamos da idéia de “ponto de conexão” para a de um “ambiente de conexão”. Ou mesmo de uma “nuvem de conexão”, onde a rede torna-se exceção e não mais norma totalizante da conectividade; a rede deixa de ser lei e passa a ser um limite. Michel Serres (1990, p. 101-124) já havia previsto tal mutação topológica. Segundo ele, as redes são grades desnecessárias, sistemas planos racionais, tramas de múltiplas seqüências lineares, que expressam escolhas arbitrárias de poder. Ainda possuem origens e hierarquias, ao passo que a nuvem está privada da origem − esse lugar central do dominador e sua ordem6. Nesse ambiente envolvente de conexão generalizada, as redes não existem a priori, mas emergem das conexões estabelecidas entre os dispositivos. Através da utilização de tecnologias Wi-Fi7 como a Mesh8, as próprias redes se tornam nômades, uma vez que o alcance de sua área de cobertura não é fixa, mas depende da localização de cada cidadão conectado. As Cibercidades e o Controle das Mobilidades A construção de cibercidades, e das mobilidades no interior delas, envolve processos de conexão de uma ampla variedade de pessoas, lugares e objetos. O exercício do poder atual também passa a estar conectado a esses processos de mobilidade. A constatação feita por Gilles Deleuze (1992, p. 215-226) de que estaríamos passando de sociedades disciplinares para sociedades de controle ajuda a confirmar tal hipótese. Numa sociedade disciplinar o poder erige internatos (escola, asilo, hospício, etc.) concebidos por analogia ao modelo da fábrica. Os internatos são espaços de confinamento, analógicos e locais. Já numa sociedade de controle o poder passa a erigir controlatos, espaços abertos, digitais e supralocais. Os controlatos são espaços de fluxos de dados, deformáveis e transformáveis. Segundo Deleuze, Félix Guattari chegou a vislumbrar uma cidade onde cada cidadão se moveria por casas, ruas, bairros, graças a um cartão eletrônico dividual9 que abriria as barreiras. Mas esse cartão poderia ser recusado em tal dia, ou entre tal e tal hora. As barreiras não importariam mais, e não confinariam mais nada. O que contaria seria a existência de computadores que detectam (através de leitores ou sensores) a

6 Através dessa análise da nuvem, Serres se aproxima bastante da idéia de espaço liso de Deleuze e Guattari (1997, p. 179-214).

7 Wi-Fi é a abreviatura de “wireless fidelity” (fidelidade sem fios), um padrão de acesso à Internet através de radiofreqüência. O seu padrão mais conhecido oferece uma velocidade de conexão de até 11 Mbps, e possui uma área de cobertura que alcança um raio de 100 metros.

8 As redes sem-fio Mesh (Wireless Mesh Networks) são também chamadas de "multi-hop", isto é, envolve tecnologia de múltiplos saltos. Não há necessidade da linha de visada com o hot spot (ponto de acesso público), pois com a utilização dos múltiplos saltos sempre haverá um caminho que permitirá contornar os obstáculos existentes que prejudicam o sinal de radiofreqüência.

9 Dividual, aqui, significa que pode ser compartilhado com outras pessoas. Segundo Deleuze, “os indivíduos tornaram-se ‘dividuais’, divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou ‘bancos’” (DELEUZE, 1992, p. 222). O controle opera com senhas ou cifras que permitem o acesso a/de “divíduos” agora reunidos em “banco de dados”.

Scene 5 (14m 41s)

[Audio] posição de cada cidadão, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal ( Deleuze, 1992, p. 224- 225). Isso porque o controle opera por modulações, é "uma moldagem auto-deformante que muda continuamente, a cada instante, ou uma peneira cujas malhas mudam de um ponto a outro" (Deleuze, 1992, p. 221). Já as disciplinas são moldes, distintas moldagens. Anne Galloway ( 2004, p. 3) analisa essa questão e nos diz que as sociedades disciplinares moldavam os comportamentos individuais e coletivos através da segregação e da fixação dos movimentos. As sociedades de controle, por sua vez, modulam as interações pela integração e organização da diferença entre as mobilidades. Bauman ( 1999, p. 58- 59) também escreveu a respeito das mudanças de mobilidade ocorridas na transição de uma sociedade para a outra. As sociedades disciplinares tinham como objetivo vigiar e disciplinar a reclusão, impedir que os indesejáveis para a sociedade escapassem ou fugissem dos internatos. Hoje, o objetivo da sociedade de controle é vigiar e controlar a inclusão, garantir que nenhum intruso entre nos controlatos. O exercício de poder e a conquista da liberdade nas duas sociedades residem na transição entre mobilidade e imobilidade. A liberdade de movimento nas sociedades disciplinares passava pela criação de linhas de fuga, e consistia em escapar dos internatos. Na atual sociedade de controle essa liberdade de movimento se traduz na obtenção de acesso, na entrada nos controlatos. Ou melhor, retornando às distinções feitas pelo próprio Bauman anteriormente, podemos concluir que a mobilidade plena passa a ser obtida por aqueles que conseguem, ao mesmo tempo, a inclusão global e a fuga da reclusão local. As tecnologias da mobilidade − computação portátil, telefonia móvel e redes semfio − passam a estar vinculadas à cidadania que começa a ser exercida nas cibercidades. As cibercidades são ambientes que articulam a cidade física com o ciberespaço ( Lévy, 1999, p. 185- 196). Articulam os internatos com os controlatos, e modulam os confinamentos tornando-os cibernéticos. Estima-se que esses próprios ambientes, em breve, terão a capacidade de: 1) comunicar-se um com outro; 2) perceber o que se passa dentro, ao redor e longe deles; e 3) responder em tempo real aos agentes locais e globais, humanos e artificiais, envolvidos nas interações e mudanças ocorridas ( Mitchell, 2002). Se as previsões estiverem certas, o mundo inteiro se tornará um único ambiente senciente e responsivo. À medida que isso for acontecendo, a última rede comunicativa necessária servirá apenas para interconectar cibercidades. Nossas cidades estão, progressivamente, tornando-se metrópoles cibernéticas, onde cada vez mais os cidadãos, animais, máquinas, veículos, objetos e lugares são monitorados e conectados, entre si e a qualquer parte do mundo, através do ciberespaço. Em movimento ou parado, tudo começa a se interconectar e a funcionar – de preferência sem fios – como um complexo sistema cibernético de comando. William Mitchell (2002, p. 83) nos diz que "habitaremos um mundo onde as coisas não ficam paradas, mas pensam no que deveriam estar fazendo e decidem o que fazer segundo as suas funções". Para Graham e Marvin, essas funções são mobilidade e controle ( Graham; Marvin, 1996, p. 96). Hoje, como alerta Paul Virilio, "o controle do ambiente suplanta em larga medida o controle social do Estado de direito" ( Virilio, 1999, p. 64). Os computadores estão desaparecendo. Progressivamente são embutidos em quase todos os objetos que nos cercam. A computação Ubíqua ( Weiser, 1991) está em vias de se concretizar, e revela-se como promotora de sistemas verdadeiramente opacos e invisíveis de vigilância e controle do ambiente. Estes sistemas são baseados no uso contínuo de máquinas, sensores e softwares automatizados ( etiquetas RFID10, cookies, 10 RFID ( Radio Frequency Identification) é uma tecnologia de identificação por radiofreqüência, utilizada em etiquetas inteligentes. Essas etiquetas emitem ondas de rádio sobre a localização e propriedades de diversos produtos para sensores compatíveis. A tecnologia RFID está substituindo o sistema de códigos de barra, pois não precisa que os produtos sejam levados até o leitor.

posição de cada cidadão, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal (Deleuze, 1992, p. 224-225). Isso porque o controle opera por modulações, é “uma moldagem auto-deformante que muda continuamente, a cada instante, ou uma peneira cujas malhas mudam de um ponto a outro” (Deleuze, 1992, p. 221). Já as disciplinas são moldes, distintas moldagens. Anne Galloway (2004, p. 3) analisa essa questão e nos diz que as sociedades disciplinares moldavam os comportamentos individuais e coletivos através da segregação e da fixação dos movimentos. As sociedades de controle, por sua vez, modulam as interações pela integração e organização da diferença entre as mobilidades. Bauman (1999, p. 58-59) também escreveu a respeito das mudanças de mobilidade ocorridas na transição de uma sociedade para a outra. As sociedades disciplinares tinham como objetivo vigiar e disciplinar a reclusão, impedir que os indesejáveis para a sociedade escapassem ou fugissem dos internatos. Hoje, o objetivo da sociedade de controle é vigiar e controlar a inclusão, garantir que nenhum intruso entre nos controlatos. O exercício de poder e a conquista da liberdade nas duas sociedades residem na transição entre mobilidade e imobilidade. A liberdade de movimento nas sociedades disciplinares passava pela criação de linhas de fuga, e consistia em escapar dos internatos. Na atual sociedade de controle essa liberdade de movimento se traduz na obtenção de acesso, na entrada nos controlatos. Ou melhor, retornando às distinções feitas pelo próprio Bauman anteriormente, podemos concluir que a mobilidade plena passa a ser obtida por aqueles que conseguem, ao mesmo tempo, a inclusão global e a fuga da reclusão local. As tecnologias da mobilidade − computação portátil, telefonia móvel e redes sem- fio − passam a estar vinculadas à cidadania que começa a ser exercida nas cibercidades. As cibercidades são ambientes que articulam a cidade física com o ciberespaço (Lévy, 1999, p. 185-196). Articulam os internatos com os controlatos, e modulam os confinamentos tornando-os cibernéticos. Estima-se que esses próprios ambientes, em breve, terão a capacidade de: 1) comunicar-se um com outro; 2) perceber o que se passa dentro, ao redor e longe deles; e 3) responder em tempo real aos agentes locais e globais, humanos e artificiais, envolvidos nas interações e mudanças ocorridas (Mitchell, 2002). Se as previsões estiverem certas, o mundo inteiro se tornará um único ambiente senciente e responsivo. À medida que isso for acontecendo, a última rede comunicativa necessária servirá apenas para interconectar cibercidades. Nossas cidades estão, progressivamente, tornando-se metrópoles cibernéticas, onde cada vez mais os cidadãos, animais, máquinas, veículos, objetos e lugares são monitorados e conectados, entre si e a qualquer parte do mundo, através do ciberespaço. Em movimento ou parado, tudo começa a se interconectar e a funcionar – de preferência sem fios – como um complexo sistema cibernético de comando. William Mitchell (2002, p. 83) nos diz que “habitaremos um mundo onde as coisas não ficam paradas, mas pensam no que deveriam estar fazendo e decidem o que fazer segundo as suas funções”. Para Graham e Marvin, essas funções são mobilidade e controle (Graham; Marvin, 1996, p. 96). Hoje, como alerta Paul Virilio, “o controle do ambiente suplanta em larga medida o controle social do Estado de direito” (Virilio, 1999, p. 64). Os computadores estão desaparecendo. Progressivamente são embutidos em quase todos os objetos que nos cercam. A computação Ubíqua (Weiser, 1991) está em vias de se concretizar, e revela-se como promotora de sistemas verdadeiramente opacos e invisíveis de vigilância e controle do ambiente. Estes sistemas são baseados no uso contínuo de máquinas, sensores e softwares automatizados (etiquetas RFID10, cookies,

10 RFID (Radio Frequency Identification) é uma tecnologia de identificação por radiofreqüência, utilizada em etiquetas inteligentes. Essas etiquetas emitem ondas de rádio sobre a localização e propriedades de diversos produtos para sensores compatíveis. A tecnologia RFID está substituindo o sistema de códigos de barra, pois não precisa que os produtos sejam levados até o leitor.

Scene 6 (20m 16s)

[Audio] agentes inteligentes, etc.) para mediar todos os tipos de relações sociais. Segundo Graham ( 2004, p. 8- 9), muitas dessas reconfigurações de poder sociotécnico são absolutamente ocultas, e as pessoas envolvidas não têm a menor idéia do que acontece e como acontece. Nossas cidades e auto-estradas estão cada vez mais sendo ordenadas eletronicamente, enquanto que um neoliberalismo global adota hierarquias e prioriza direitos, mobilidades e acessos. Em muitas cidades cibernéticas que estão sendo construídas o controle da livre passagem de pessoas e coisas não está consistindo mais em barrar a circulação através da intervenção humana, mas apenas em "acessar" o transeunte e, sem necessidade de pará-lo, permitir que olhos não-humanos leiam a sua " identidade" digital − agora codificada em um pequeno aparelho ou etiqueta RFID, acoplados a ele ou ao seu veículo, ampliando a sua potência de deslocamento. A livre passagem é, então, obtida por meio da transmissão adequada de informações ( Ferraz, 1998). Mas essas senhas e cifras, que franqueiam ou barram nosso acesso aos ambientes, nem precisam mais ser digitadas por humanos. Os cartões também não são mais necessários. Com as etiquetas RFID, por exemplo, a mediação é feita de forma imperceptível, pelas próprias máquinas, com a ajuda da inteligência artificial. Caminhamos para a realização da " interface zero", onde bastaria armazenar os dados necessários em um objeto, dispositivo, ou software específico, para que tudo se processe automaticamente. Graças à computação ubíqua − que busca ir para todos os lugares e estar em todos os lugares − podemos ver emergir uma cidade mais inusitada do que a vislumbrada por Guattari. Multifuncionais, Comunicação sem-fio e Mobilidade Porém, nesse universo de tecnologias da mobilidade, não são só os ambientes que exercem controle sobre os cidadãos. Através dos aparelhos multifuncionais os urbanitas também adquirem condições de controlar o ambiente. O multifuncional é um dispositivo portátil que une, entre várias funções, computação, telefonia e navegação pela Internet. Ele é telefone, televisão, máquina fotográfica, câmera de vídeo, gravador de som, player de filmes, tocador de música, browser de Internet, emissor e receptor de informações e mensagens ( SMS e e-mails), carteira eletrônica e localizador GPS11; tudo em um só aparelho. Essa convergência de várias funções é mais comum nos PDAs e PC Pockets. Entretanto, a grande expectativa ainda reside nos aparelhos celulares − menores, mais leves e, por isso, mais portáteis. Estima-se que o celular virará uma espécie de controle remoto para a vida cotidiana do usuário ( Mann, 2004), possibilitando a navegação pela Internet através de várias tecnologias, além do controle de vários aparelhos eletroeletrônicos e instâncias do lar ( TV, DVD, luzes, portas, câmeras, alarmes, etc.). As conseqüências dessa mobilidade e desse " contato perpétuo" ( Katz; Aakhus, 2002) oferecido pelos celulares e demais aparelhos multifuncionais começam a despertar o interesse de vários pesquisadores para a flexibilização do controle social e das relações de trabalho, as alterações nas formas de comunicação e, sobretudo, no sentido do que é comunicar. Novamente surge a questão do controle e da vigilância. Embora o controle do ambiente pareça se agravar com as tecnologias da mobilidade, o uso do celular permite uma certa flexibilização da vigilância e do controle social. Num estudo feito na Coréia, Shin Dong Kim percebeu que muitos adolescentes vêem o celular como uma tecnologia de liberdade, enquanto que para muitos pais ele é uma tecnologia de perda de controle 11 GPS ( Global Position System) é um sistema de posicionamento global que permite determinar as coordenadas geodésicas ( latitude, longitude e altitude) de alguma pessoa portando receptores GPS.

agentes inteligentes, etc.) para mediar todos os tipos de relações sociais. Segundo Graham (2004, p. 8-9), muitas dessas reconfigurações de poder sociotécnico são absolutamente ocultas, e as pessoas envolvidas não têm a menor idéia do que acontece e como acontece. Nossas cidades e auto-estradas estão cada vez mais sendo ordenadas eletronicamente, enquanto que um neoliberalismo global adota hierarquias e prioriza direitos, mobilidades e acessos. Em muitas cidades cibernéticas que estão sendo construídas o controle da livre passagem de pessoas e coisas não está consistindo mais em barrar a circulação através da intervenção humana, mas apenas em “acessar” o transeunte e, sem necessidade de pará-lo, permitir que olhos não-humanos leiam a sua “identidade” digital − agora codificada em um pequeno aparelho ou etiqueta RFID, acoplados a ele ou ao seu veículo, ampliando a sua potência de deslocamento. A livre passagem é, então, obtida por meio da transmissão adequada de informações (Ferraz, 1998). Mas essas senhas e cifras, que franqueiam ou barram nosso acesso aos ambientes, nem precisam mais ser digitadas por humanos. Os cartões também não são mais necessários. Com as etiquetas RFID, por exemplo, a mediação é feita de forma imperceptível, pelas próprias máquinas, com a ajuda da inteligência artificial. Caminhamos para a realização da “interface zero”, onde bastaria armazenar os dados necessários em um objeto, dispositivo, ou software específico, para que tudo se processe automaticamente. Graças à computação ubíqua − que busca ir para todos os lugares e estar em todos os lugares − podemos ver emergir uma cidade mais inusitada do que a vislumbrada por Guattari. Multifuncionais, Comunicação sem-fio e Mobilidade Porém, nesse universo de tecnologias da mobilidade, não são só os ambientes que exercem controle sobre os cidadãos. Através dos aparelhos multifuncionais os urbanitas também adquirem condições de controlar o ambiente. O multifuncional é um dispositivo portátil que une, entre várias funções, computação, telefonia e navegação pela Internet. Ele é telefone, televisão, máquina fotográfica, câmera de vídeo, gravador de som, player de filmes, tocador de música, browser de Internet, emissor e receptor de informações e mensagens (SMS e e-mails), carteira eletrônica e localizador GPS11; tudo em um só aparelho. Essa convergência de várias funções é mais comum nos PDAs e PC Pockets. Entretanto, a grande expectativa ainda reside nos aparelhos celulares − menores, mais leves e, por isso, mais portáteis. Estima-se que o celular virará uma espécie de controle remoto para a vida cotidiana do usuário (Mann, 2004), possibilitando a navegação pela Internet através de várias tecnologias, além do controle de vários aparelhos eletroeletrônicos e instâncias do lar (TV, DVD, luzes, portas, câmeras, alarmes, etc.). As conseqüências dessa mobilidade e desse “contato perpétuo” (Katz; Aakhus, 2002) oferecido pelos celulares e demais aparelhos multifuncionais começam a despertar o interesse de vários pesquisadores para a flexibilização do controle social e das relações de trabalho, as alterações nas formas de comunicação e, sobretudo, no sentido do que é comunicar. Novamente surge a questão do controle e da vigilância. Embora o controle do ambiente pareça se agravar com as tecnologias da mobilidade, o uso do celular permite uma certa flexibilização da vigilância e do controle social. Num estudo feito na Coréia, Shin Dong Kim percebeu que muitos adolescentes vêem o celular como uma tecnologia de liberdade, enquanto que para muitos pais ele é uma tecnologia de perda de controle

11 GPS (Global Position System) é um sistema de posicionamento global que permite determinar as coordenadas geodésicas (latitude, longitude e altitude) de alguma pessoa portando receptores GPS.

Scene 7 (24m 45s)

[Audio] ( Kim, 2002, p. 72- 23). Se antes o telefone fixo era um dispositivo de controle que permitia aos pais saberem onde os seus filhos estavam, simplesmente ligando para eles, agora os celulares não permitem mais esse tipo de vigilância − embora muitos pais continuem a comprar o celular para os seus filhos com esse propósito. Em Tóquio, segundo a antropóloga Mizuko Ito ( 2005, p. 3), muitos desses adolescentes formam redes pessoais de troca de SMS12 para escapar do controle dos pais. Eles mudam a dinâmica dos seus encontros e a maneira como se coordenam, comunicam e compartilham informação. Os celulares e demais dispositivos móveis também alteraram o universo do trabalho. Se por um lado liberam o trabalhador da necessidade de ficar preso em seu local de labor, por outro, permitem que o chefe monitore e controle com mais eficácia suas atividades. No lugar do trabalho à distância, estamos vendo se intensificar o " teletrabalho móvel". O trabalhador não abandona os escritórios, mas passa a utilizá-lo apenas quando é necessário. "Assim, o modelo emergente de trabalho não é o teletrabalhador em casa, mas o 'trabalhador nômade' e o ' escritório em movimento'" ( Castells, 2003, p. 192). Não estamos testemunhando, segundo Castells, a eliminação da demanda de mobilidade, mas sim o surgimento de uma " hipermobilidade" ( Idem, p. 193). Os trabalhadores se movimentam cada vez mais, porém só com objetivos específicos. Diminuem-se os deslocamentos desnecessários e as " vagabundagens". Além da conversação, o outro modo de comunicação pelo celular é através do envio de SMS. Prática que já é predominante em Tóquio ( Rheingold, 2002, p. xi), pois o envio dessas mensagens é bem mais barato do que as ligações por celular. Além disso, muitas pessoas consideram o SMS um serviço conveniente, pois às vezes não querem entrar numa conversa e o texto evita isso. Torna-se o ideal para quando o usuário não quer falar e ouvir, apenas dar um recado, como um bilhete ( Orosco, Freitas Jr., 2004). As pessoas não precisam responder automaticamente quando recebem as mensagens. Não se estendem em longas conversas, ou até mesmo, não estabelecem nenhuma. O celular deixa de ser um instrumento de comunicação e se torna um dispositivo de troca rápida de informações ( Fortunati, 2002, p. 44). O usuário de celular vira um ponto de convergência de informações, o que leva alguns autores a enxergarem nisso o surgimento de uma personalização extrema. George Myerson diz que as campanhas publicitárias buscam vender o celular como um aparelho que literalmente se torna "o seu centro de comunicação pessoal" ( Myerson, 2001, p. 21). Vende-se a idéia de que comunicar e receber informação são a mesma coisa. Analisando a obra de Heidegger e Habermas, Myerson busca interrogar se a troca de informações por celular pode ser vista como um processo de comunicação. Conclui que não é um processo comunicativo, mas sim a mera troca de mensagens curtas e instantâneas. Isso porque a ênfase se desloca do entendimento mútuo entre humanos e se instala em um indivíduo recebendo informações do mundo. Essas mensagens de texto funcionam como ordens a serem obedecidas e não servem para o desenvolvimento de um diálogo. A comunicação deixa de ser discurso, compreensão mútua e ação comum e passa a ser uma ação solitária que funciona melhor quando apenas uma pessoa está envolvida. Tende a não ser mais comunicação social, mas sim comunicação pessoal. A cultura da mobilidade parece não ser uma cultura da comunicação, no seu sentido comum. A troca de informações que ocorre entre os usuários de celular parece bem mais com as senhas de acesso da sociedade de controle. Comunicação e Controle 12 SMS ( Short Message Service) é um sistema de envio de mensagens curtas de texto, mais conhecidas no Brasil como torpedo. A sua evolução é o MMS ( Multimedia Messaging Service), o desenvolvimento mais recente nos serviços de mensagens móveis. É um serviço de mensagens com texto, áudio e imagem.

(Kim, 2002, p. 72-23). Se antes o telefone fixo era um dispositivo de controle que permitia aos pais saberem onde os seus filhos estavam, simplesmente ligando para eles, agora os celulares não permitem mais esse tipo de vigilância − embora muitos pais continuem a comprar o celular para os seus filhos com esse propósito. Em Tóquio, segundo a antropóloga Mizuko Ito (2005, p. 3), muitos desses adolescentes formam redes pessoais de troca de SMS12 para escapar do controle dos pais. Eles mudam a dinâmica dos seus encontros e a maneira como se coordenam, comunicam e compartilham informação. Os celulares e demais dispositivos móveis também alteraram o universo do trabalho. Se por um lado liberam o trabalhador da necessidade de ficar preso em seu local de labor, por outro, permitem que o chefe monitore e controle com mais eficácia suas atividades. No lugar do trabalho à distância, estamos vendo se intensificar o “teletrabalho móvel”. O trabalhador não abandona os escritórios, mas passa a utilizá-lo apenas quando é necessário. “Assim, o modelo emergente de trabalho não é o teletrabalhador em casa, mas o ‘trabalhador nômade’ e o ‘escritório em movimento’” (Castells, 2003, p. 192). Não estamos testemunhando, segundo Castells, a eliminação da demanda de mobilidade, mas sim o surgimento de uma “hipermobilidade” (Idem, p. 193). Os trabalhadores se movimentam cada vez mais, porém só com objetivos específicos. Diminuem-se os deslocamentos desnecessários e as “vagabundagens”. Além da conversação, o outro modo de comunicação pelo celular é através do envio de SMS. Prática que já é predominante em Tóquio (Rheingold, 2002, p. xi), pois o envio dessas mensagens é bem mais barato do que as ligações por celular. Além disso, muitas pessoas consideram o SMS um serviço conveniente, pois às vezes não querem entrar numa conversa e o texto evita isso. Torna-se o ideal para quando o usuário não quer falar e ouvir, apenas dar um recado, como um bilhete (Orosco, Freitas Jr., 2004). As pessoas não precisam responder automaticamente quando recebem as mensagens. Não se estendem em longas conversas, ou até mesmo, não estabelecem nenhuma. O celular deixa de ser um instrumento de comunicação e se torna um dispositivo de troca rápida de informações (Fortunati, 2002, p.44). O usuário de celular vira um ponto de convergência de informações, o que leva alguns autores a enxergarem nisso o surgimento de uma personalização extrema. George Myerson diz que as campanhas publicitárias buscam vender o celular como um aparelho que literalmente se torna “o seu centro de comunicação pessoal” (Myerson, 2001, p. 21). Vende-se a idéia de que comunicar e receber informação são a mesma coisa. Analisando a obra de Heidegger e Habermas, Myerson busca interrogar se a troca de informações por celular pode ser vista como um processo de comunicação. Conclui que não é um processo comunicativo, mas sim a mera troca de mensagens curtas e instantâneas. Isso porque a ênfase se desloca do entendimento mútuo entre humanos e se instala em um indivíduo recebendo informações do mundo. Essas mensagens de texto funcionam como ordens a serem obedecidas e não servem para o desenvolvimento de um diálogo. A comunicação deixa de ser discurso, compreensão mútua e ação comum e passa a ser uma ação solitária que funciona melhor quando apenas uma pessoa está envolvida. Tende a não ser mais comunicação social, mas sim comunicação pessoal. A cultura da mobilidade parece não ser uma cultura da comunicação, no seu sentido comum. A troca de informações que ocorre entre os usuários de celular parece bem mais com as senhas de acesso da sociedade de controle. Comunicação e Controle

12 SMS (Short Message Service) é um sistema de envio de mensagens curtas de texto, mais conhecidas no Brasil como torpedo. A sua evolução é o MMS (Multimedia Messaging Service), o desenvolvimento mais recente nos serviços de mensagens móveis. É um serviço de mensagens com texto, áudio e imagem.

Scene 8 (29m 46s)

Deleuze e Guattari dizem que nas sociedades de controle “não nos falta comunicação; ao contrário, temos comunicação de sobra. O que nos falta é criação. O que nos falta é a resistência ao presente” (apud Negri; Hardt, 2001, p. 417). E que criar não é apenas comunicar, mas resistir. Nesse sentido, a organização dessa resistência não dependeria da retomada da palavra pelas minorias, mas sim de um certo desvio da fala. Deleuze nos convida a criar “vacúolos de não-comunicação” para escapar ao controle (Deleuze, 1992, p. 217). Segundo ele, a criação exige a construção de vacúolos de não- comunicação para que alguma coisa finalmente mereça ser dita. A troca de mensagens de texto entre celulares parece criar justamente isso, “algo assim como uma comunicação... sem comunicação” (Lyotard, 1993, p. 258-259), imediata aos sentidos, anterior a qualquer pragmática comunicacional e que não necessariamente busca o consenso. Um tipo de comunicação permanentemente voltada para a informação, que serve tanto para manter funcionando os novos mecanismos cibernéticos de controle quanto para criar novos agenciamentos de resistência. Isso porque, como nos diz Antonio Negri,

(...) a comunicação nos aparece agora como máquina que domina toda a sociedade, mas dentro da qual a cooperação das consciências e das práticas individuais atinge seu mais alto nível de produtividade − produtividade do indivíduo, cooperação dos indivíduos, produção de um novo horizonte ao mesmo tempo de riquezas e de liberação (Negri, 1993, p. 175).

As tecnologias da mobilidade reforçaram a tendência do controle de cobrir a totalidade da sociedade e da vida com suas redes. Porém, como escreveu o próprio Deleuze, a cada tipo de sociedade pode-se fazer corresponder um tipo de máquina. “Mas elas não explicam nada, é preciso analisar os agenciamentos coletivos dos quais elas são apenas parte” (Deleuze, 1992, p. 216). À medida que as sociedades de controle efetivamente se organizam − graças, sobretudo, às tecnologias da mobilidade −, novas formas de resistência também aparecem. Nas cibercidades que estão surgindo, a inteligência artificial gerencia automaticamente complexos processos de fluxos e serviços e aumenta a mobilidade de produtores e consumidores de informação (Mitchell, 2003, p. 84). Os cidadãos ficam cada vez mais sujeitos à dominação daqueles que controlam ambientes, mobilidades e coisas. As tecnologias da mobilidade permitem o exercício de uma nova forma de poder, mas também fornece uma nova maneira de resistir a ela. Smart Mobs e a Resistência da Multidão O maior exemplo desse uso do SMS e das tecnologias da mobilidade para agenciar resistência é o quem vem sendo chamado de Smart Mobs ou Multidões Inteligentes13. São agrupamentos compostos por pessoas com a capacidade de agir de forma coordenada, mesmo sem se conhecerem previamente, utilizando dispositivos portáteis conectados sem-fio à Internet e outras redes colaborativas. Segundo Howard Rheingold (2002), criador do termo, as smart mobs emergem da sinergia de comunicação móvel, computação portátil, redes sem-fio e ação coletiva.

13 O termo Smart Mobs é de tradução problemática. Smart geralmente significa esperto ou inteligente − principalmente quando se refere a alguma tecnologia. Já Mobs remete a turmas, bandos, massas e turbas, sendo igualmente utilizado como gíria para designar a máfia ou qualquer outro tipo extenso de organização criminosa. Teríamos, portanto, diversas traduções possíveis. Mas preferimos traduzir como Multidões Inteligentes, conforme foi feito pela versão brasileira da revista eletrônica americana Wired. Disponível em: <http://br.wired.com/wired/cultura/0,1153,10669,00.html> Acesso em: 10 mar. 2004.

Scene 9 (31m 20s)

[Audio] As pessoas que compõem as smart mobs agem de forma cooperativa e autoorganizável, principalmente através de mensagens SMS enviadas em massa. Além dos celulares, porém, outros dispositivos portáteis também são usados para organizar a ação coletiva − como, por exemplo, Pc pockets e notebooks com tecnologia Wi-Fi. As smart mobs podem ser comunidades de interesse ou multidões com objetivos comuns. Porém, o que as diferencia das comunidades e multidões já conhecidas é o uso de tecnologias móveis, as novas formas de comunicação e a organização descentralizada. São comunidades virtuais que se distanciaram dos desktops e saíram do ciberespaço. " Comunidades sem-fio ( wireless), cuja essência é a mobilidade, o estar sempre ligado (always on) independente do lugar" ( Costa, 2002, p. 74). Existem vários tipos de smart mobs. Algumas são formadas por adolescentes que trocam SMS para marcar encontros ou arrumar namorada. Um exemplo brasileiro desse tipo de smart mob é a comunidade virtual Blah! ( um serviço oferecido pela operadora de telefonia celular TIM), formada por milhares de jovens que têm a possibilidade de criar e buscar perfis em determinada localidade, e flertar com estranhos por SMS. Curiosamente, existem smart mobs que são formadas com o intuito de compartilhar o poder de processamento de computadores − que não estão sendo usados − para pesquisar inteligência extraterrestre (Rheingold, 2002, p. 63- 71). As flash mobs ou multidões relâmpago, onda mundial em 2003, são exemplos de smart mobs que possuem caráter lúdico e hedonista − lembrando muitas vezes os happinings e as performances. Nesse artigo, contudo, estarei me referindo mais especificamente às mobilizações de cunho mais ativista, engajadas em protestos políticos (Rheingold, 2002, p. 157- 182). Um bom exemplo desse tipo de smart mob aconteceu nas Filipinas. Em 20 de janeiro de 2001, mais de um milhão de pessoas foram protestar nas ruas de Manila através da mobilização e coordenação de SMS. Exigiam a deposição do presidente filipino Joseph Estrada, acusado de corrupção, e conseguiram o que queriam. Essa mobilização ficou conhecida por " People Power II". Estrada foi o primeiro presidente a cair por causa do poder das multidões inteligentes ( Rheingold, 2002, p. 157- 158). Recentemente, ocorreu um caso parecido nas últimas eleições presidenciais na Espanha. Em 11 de março de 2004, três dias antes das eleições, ocorreu o bárbaro atentado da Al-Qaeda em Madri. Desde os primeiros momentos a polícia indicou que o crime fora obra de um grupo terrorista islâmico. Mas o presidente José Maria Aznar decidiu que essa revelação seria muito prejudicial em vésperas de eleição. Isso porque entrou na guerra do Iraque sem o apoio da população. Resolveu, então, ocultar a verdade, mentir. Ligou para os diretores dos principais meios de comunicação da Espanha e lhes deu sua palavra que ele teria provas de que o grupo terrorista basco ETA era o autor do atentado. A verdade veio à tona e, em 14 de março, dia das eleições, os jovens espanhóis conseguiram mudar a preferência do povo através do envio de dois milhões de mensagens de texto ( Orosco; Freitas Jr., 2004, p. 72- 73). Na ultima hora, essa smart mob virou a mesa e derrubou o Partido Popular do governo, considerado responsável pela atração do radicalismo islâmico ao país. O Partido Comunista e a multidão venceram as eleições. O surgimento das smart mobs marca a transformação da tão criticada massa "estúpida", desarticulada e alienada, em uma multidão inteligente, interconectada e cooperativa. Tradicionalmente, a multidão sempre foi encarada pelos sociólogos e pensadores políticos como um agregado social que não chegava a constituir um grupo, muito menos uma comunidade política. Capaz de assumir forma pacífica ou tumultuosa, ela geralmente era formada por pessoas observando um incêndio ou fugindo de um edifico em chamas, mas também por aquelas que se encontram nas ruas para brincar carnaval ou para organizar linchamentos. Neste último caso, temos uma espécie de agregação ensandecida, capaz dos atos mais violentos e irracionais, que os governantes

As pessoas que compõem as smart mobs agem de forma cooperativa e auto- organizável, principalmente através de mensagens SMS enviadas em massa. Além dos celulares, porém, outros dispositivos portáteis também são usados para organizar a ação coletiva − como, por exemplo, Pc pockets e notebooks com tecnologia Wi-Fi. As smart mobs podem ser comunidades de interesse ou multidões com objetivos comuns. Porém, o que as diferencia das comunidades e multidões já conhecidas é o uso de tecnologias móveis, as novas formas de comunicação e a organização descentralizada. São comunidades virtuais que se distanciaram dos desktops e saíram do ciberespaço. “Comunidades sem-fio (wireless), cuja essência é a mobilidade, o estar sempre ligado (always on) independente do lugar” (Costa, 2002, p. 74). Existem vários tipos de smart mobs. Algumas são formadas por adolescentes que trocam SMS para marcar encontros ou arrumar namorada. Um exemplo brasileiro desse tipo de smart mob é a comunidade virtual Blah! (um serviço oferecido pela operadora de telefonia celular TIM), formada por milhares de jovens que têm a possibilidade de criar e buscar perfis em determinada localidade, e flertar com estranhos por SMS. Curiosamente, existem smart mobs que são formadas com o intuito de compartilhar o poder de processamento de computadores − que não estão sendo usados − para pesquisar inteligência extraterrestre (Rheingold, 2002, p. 63-71). As flash mobs ou multidões relâmpago, onda mundial em 2003, são exemplos de smart mobs que possuem caráter lúdico e hedonista − lembrando muitas vezes os happinings e as performances. Nesse artigo, contudo, estarei me referindo mais especificamente às mobilizações de cunho mais ativista, engajadas em protestos políticos (Rheingold, 2002, p. 157-182). Um bom exemplo desse tipo de smart mob aconteceu nas Filipinas. Em 20 de janeiro de 2001, mais de um milhão de pessoas foram protestar nas ruas de Manila através da mobilização e coordenação de SMS. Exigiam a deposição do presidente filipino Joseph Estrada, acusado de corrupção, e conseguiram o que queriam. Essa mobilização ficou conhecida por “People Power II”. Estrada foi o primeiro presidente a cair por causa do poder das multidões inteligentes (Rheingold, 2002, p. 157-158). Recentemente, ocorreu um caso parecido nas últimas eleições presidenciais na Espanha. Em 11 de março de 2004, três dias antes das eleições, ocorreu o bárbaro atentado da Al-Qaeda em Madri. Desde os primeiros momentos a polícia indicou que o crime fora obra de um grupo terrorista islâmico. Mas o presidente José Maria Aznar decidiu que essa revelação seria muito prejudicial em vésperas de eleição. Isso porque entrou na guerra do Iraque sem o apoio da população. Resolveu, então, ocultar a verdade, mentir. Ligou para os diretores dos principais meios de comunicação da Espanha e lhes deu sua palavra que ele teria provas de que o grupo terrorista basco ETA era o autor do atentado. A verdade veio à tona e, em 14 de março, dia das eleições, os jovens espanhóis conseguiram mudar a preferência do povo através do envio de dois milhões de mensagens de texto (Orosco; Freitas Jr., 2004, p. 72-73). Na ultima hora, essa smart mob virou a mesa e derrubou o Partido Popular do governo, considerado responsável pela atração do radicalismo islâmico ao país. O Partido Comunista e a multidão venceram as eleições. O surgimento das smart mobs marca a transformação da tão criticada massa “estúpida”, desarticulada e alienada, em uma multidão inteligente, interconectada e cooperativa. Tradicionalmente, a multidão sempre foi encarada pelos sociólogos e pensadores políticos como um agregado social que não chegava a constituir um grupo, muito menos uma comunidade política. Capaz de assumir forma pacífica ou tumultuosa, ela geralmente era formada por pessoas observando um incêndio ou fugindo de um edifico em chamas, mas também por aquelas que se encontram nas ruas para brincar carnaval ou para organizar linchamentos. Neste último caso, temos uma espécie de agregação ensandecida, capaz dos atos mais violentos e irracionais, que os governantes

Scene 10 (36m 31s)

[Audio] enfrentam e que cabe a eles domar, dominar. Peter Pál Pelbart ( 2003, p. 115) revela que essa é uma caracterização negativa da multidão, que herdamos de Hobbes e Rousseau, mas com a qual Espinosa rompeu ao considerar a democracia um produto da atividade criadora da multidão. Nesse sentido positivo, a multidão se contrapõe ao povo ou à massa. Ao contrário do povo, que repousa sobre a idéia de uma vontade geral refletindose no soberano ou no Estado, e da massa, que tem uma direção única ditada por palavras de ordem proferidas por um poder transcendente e hierárquico, a multidão é avessa à unidade, ao consenso; por isso é incapaz de delegar poderes. As smart mobs resgatam a positividade dessa multidão espinosista − por muito tempo esquecida pelas ciências sociais −, pois são plurais, centrífugas, fogem à unidade política por meio de uma auto-organização imanente e heterogênea. Não assinam pactos com o soberano, não delega a ele direitos e resistem à obediência. Essa multidão não é meramente um efeito dos dispositivos tecnológicos, mais um tipo de tecnologia nela mesma ( Rheingold, 2002, p. 160). Embora não claramente, as smart mobs inauguram um novo ciclo político na história, no que diz respeito não só às dinâmicas das lutas, mas também às formas de entender e fazer política. Considerações Finais A mobilidade social foi a grande promessa da revolução burguesa contra a hierarquia rígida da monarquia. Está na gênese do próprio capitalismo moderno. Mas também foram os " movimentos sociais" que conquistaram direitos e impuseram limites ao Capital. Hoje, a mobilidade é criadora de novas hierarquias e se torna o valor mais cobiçado tanto pelas políticas cibernéticas de controle, quanto pelas práticas de resistência que emergem nas cibercidades. Portanto, analisar os novos agenciamentos de comunicação, mobilidade, controle e resistência presentes nesses ambientes, é necessário e urgente. É preciso "compreender de que forma agimos e pensamos em multidão" ( Costa, 2004). Rogério da Costa argumenta que só assim poderemos evitar "a ação coletiva autômata da sociedade de controle, onde padrões de comportamento coletivo orientam o mercado e os organismos de vigilância". Segundo ele, as smart mobs, os ativismos na rede e a inteligência afluente − ação coletiva inteligente − são a prova de que é possível construir um contra-controle. O termo Smart Mobs significa multidões inteligentes, mas também " mobilidades inteligentes", já que mob geralmente é a abreviação de mobile. A nova cibercidade que estamos construindo é uma articulação complexa entre cidade, ciberespaço e inteligência ( coletiva e artificial), onde o que está em questão são mobilidade e controle. Caberia saber que tipo de mobilidade serve ao controle e qual promove liberdade. Não podemos ignorar que existem mobilidades que proporcionam um mero nomadismo facilmente rastreável e outras que efetivamente se apresentam como vetores, ou vagas, de resistência. Saber a diferença entre essas mobilidades pode ser a garantia de que nas ruas das cibercidades, que estão emergindo, veremos uma multidão − realmente inteligente − de flâneurs que deambulam em seu próprio ritmo, ao invés de transeuntes cuja movimentação se deixa levar por um automatismo controlador. Referências Bibliográficas AUGE, M. Não lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Bertrand Editora, 1994 BAUMAN, Z. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. BOURDIN, A. A questão local. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

enfrentam e que cabe a eles domar, dominar. Peter Pál Pelbart (2003, p. 115) revela que essa é uma caracterização negativa da multidão, que herdamos de Hobbes e Rousseau, mas com a qual Espinosa rompeu ao considerar a democracia um produto da atividade criadora da multidão. Nesse sentido positivo, a multidão se contrapõe ao povo ou à massa. Ao contrário do povo, que repousa sobre a idéia de uma vontade geral refletindo- se no soberano ou no Estado, e da massa, que tem uma direção única ditada por palavras de ordem proferidas por um poder transcendente e hierárquico, a multidão é avessa à unidade, ao consenso; por isso é incapaz de delegar poderes. As smart mobs resgatam a positividade dessa multidão espinosista − por muito tempo esquecida pelas ciências sociais −, pois são plurais, centrífugas, fogem à unidade política por meio de uma auto-organização imanente e heterogênea. Não assinam pactos com o soberano, não delega a ele direitos e resistem à obediência. Essa multidão não é meramente um efeito dos dispositivos tecnológicos, mais um tipo de tecnologia nela mesma (Rheingold, 2002, p. 160). Embora não claramente, as smart mobs inauguram um novo ciclo político na história, no que diz respeito não só às dinâmicas das lutas, mas também às formas de entender e fazer política. Considerações Finais A mobilidade social foi a grande promessa da revolução burguesa contra a hierarquia rígida da monarquia. Está na gênese do próprio capitalismo moderno. Mas também foram os “movimentos sociais” que conquistaram direitos e impuseram limites ao Capital. Hoje, a mobilidade é criadora de novas hierarquias e se torna o valor mais cobiçado tanto pelas políticas cibernéticas de controle, quanto pelas práticas de resistência que emergem nas cibercidades. Portanto, analisar os novos agenciamentos de comunicação, mobilidade, controle e resistência presentes nesses ambientes, é necessário e urgente. É preciso “compreender de que forma agimos e pensamos em multidão” (Costa, 2004). Rogério da Costa argumenta que só assim poderemos evitar “a ação coletiva autômata da sociedade de controle, onde padrões de comportamento coletivo orientam o mercado e os organismos de vigilância”. Segundo ele, as smart mobs, os ativismos na rede e a inteligência afluente − ação coletiva inteligente − são a prova de que é possível construir um contra-controle. O termo Smart Mobs significa multidões inteligentes, mas também "mobilidades inteligentes", já que mob geralmente é a abreviação de mobile. A nova cibercidade que estamos construindo é uma articulação complexa entre cidade, ciberespaço e inteligência (coletiva e artificial), onde o que está em questão são mobilidade e controle. Caberia saber que tipo de mobilidade serve ao controle e qual promove liberdade. Não podemos ignorar que existem mobilidades que proporcionam um mero nomadismo facilmente rastreável e outras que efetivamente se apresentam como vetores, ou vagas, de resistência. Saber a diferença entre essas mobilidades pode ser a garantia de que nas ruas das cibercidades, que estão emergindo, veremos uma multidão − realmente inteligente − de flâneurs que deambulam em seu próprio ritmo, ao invés de transeuntes cuja movimentação se deixa levar por um automatismo controlador. Referências Bibliográficas

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Scene 11 (40m 57s)

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Scene 12 (42m 17s)

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